Por Vera Lúcia Magalhães
Olá, eu me chamo Vera Lúcia Magalhães e gostaria de dividir um pouco da minha história de vida com vocês. Uma história que não foi muito fácil, marcada por muitas dificuldades, dores, perdas e desafios, mas também por muita fé, perseverança e confiança em Deus.
Eu nasci no ano de 1966, no interior do estado de São Paulo, Brasil. Sou filha de Joaquim e Maria, ambos naturais de Minas Gerais. Meus pais nasceram lá, se casaram e depois se estabeleceram na cidade de Aparecida d’Oeste, bem no oeste do estado de São Paulo, próximo à divisa com o Mato Grosso do Sul. Foi ali que nossa família viveu até 1973.
Naquela época, meus pais trabalhavam na fazenda, mas a situação começou a ficar muito difícil. As colheitas não estavam dando os resultados esperados e meu pai, preocupado com o sustento da família, resolveu buscar uma vida melhor nas cidades maiores. Primeiramente, nos estabelecemos em Jales, São Paulo, e, em 1974, chegamos à cidade de Indaiatuba.
Meu pai chegou a Indaiatuba com sete filhos, todos menores de idade. Éramos cinco irmãos mais velhos, eu e a minha irmã caçula. Não era fácil criar uma família tão grande, principalmente com tão poucos recursos. Meus irmãos mais velhos começaram a trabalhar cedo, em fábricas e cerâmicas, para ajudar nosso pai a sustentar a casa. Eu, como ainda era muito pequena, com apenas sete anos, frequentava a escola.
Foram dias muito difíceis, principalmente para os meus pais. Além das dificuldades financeiras, nossa família também enfrentou outros problemas. Uma das minhas irmãs, aos 15 anos, sofreu um atropelamento e ficou com amnésia durante algum tempo. Outros irmãos também passaram por situações difíceis. Mas, mesmo diante de tudo isso, fomos sobrevivendo e seguindo em frente.
Quando eu tinha 11 anos de idade, minha vida mudou completamente. Fui acometida por uma doença muito triste, que naquela época não era muito conhecida, chamada osteomielite crônica. É uma infecção que atinge os ossos e, no meu caso, atingiu o fêmur esquerdo.
Eu sofri muito com essa doença, e meus pais também. Sentia dores muito fortes, tinha febre constantemente e, muitas vezes, não conseguia andar. Era uma dor que não cessava, nem de dia nem de noite. Meu pai, em muitas ocasiões, precisava me carregar no colo para as consultas médicas, porque eu simplesmente não conseguia caminhar.
Entre 1978 e 1981, passei por uma cirurgia a cada ano, na esperança de conseguir me recuperar. Mas a doença não desapareceu. A infecção diminuiu, as dores e as febres deixaram de ser constantes, porém, de tempos em tempos, eu ainda tinha crises e precisava voltar ao hospital para receber antibióticos e ficar internada.
Por conta disso, não tive uma infância muito saudável. Muitas vezes, passava seis meses internada no hospital e outros seis meses em casa. Minha vida era praticamente dividida entre os tratamentos e os poucos momentos em que conseguia estar com a minha família.
A doença também prejudicou meus estudos. Eu não conseguia frequentar a escola regularmente e, por isso, não pude dar continuidade à minha educação naquela época. Minha saúde bucal também foi prejudicada durante todos aqueles anos de tratamentos e medicações.
Minha mãe fazia de tudo para me ver bem. Ela me levava aos hospitais, aos curandeiros e a qualquer pessoa que dissesse que poderia fazer alguma coisa por mim. Ela nunca deixou de procurar uma solução, nunca deixou de cuidar de mim. Meus pais sofreram muito ao meu lado, mas fizeram tudo o que estava ao alcance deles.
E assim os anos foram passando.
Em 1986, conheci o homem que seria o pai dos meus filhos e me casei. Eu ainda era muito nova e não tinha certeza se aquele casamento daria certo, mas estava grávida e resolvi me casar.
Desse relacionamento nasceram meus três filhos: Carina, minha filha mais velha, João, meu segundo filho, e Katiane, minha caçula.
Meu casamento também não foi fácil. Meu ex-marido e a família dele eram espíritas. Não tenho nada contra a religião deles, porque respeito a crença de cada pessoa, mas eu não me sentia bem naquele ambiente e não conseguia encontrar paz.
Além disso, as brigas eram constantes. Meu marido era uma pessoa muito ciumenta, desconfiava muito de mim, e essas situações foram desgastando nosso relacionamento. Até que, por volta de 1993 e 1994, acabamos nos separando.
A partir daquele momento, tive que enfrentar mais uma grande batalha: criar meus três filhos sozinha.
Não foi fácil. Eu precisava trabalhar, sustentar a casa, cuidar dos meus filhos e encontrar forças para continuar, mesmo nos dias em que estava cansada e desanimada. Mas eu nunca desisti. Nunca baixei minha cabeça e nunca deixei de confiar em Deus.
Fui lavadeira, fui lancheira, fui diarista. Fiz tudo o que estava ao meu alcance para dar o melhor aos meus filhos. Eu não tinha medo do trabalho, porque sabia que meus filhos dependiam de mim.
Somente por volta de 1996 e 1997 consegui entrar em um emprego mais estável, onde permaneci por quase 22 anos. Aquela estabilidade foi muito importante para mim e para a minha família.
Meus filhos foram crescendo, chegaram à adolescência e, como acontece em muitas famílias, também enfrentamos dificuldades. Eu passava mais tempo fora de casa do que dentro, porque precisava trabalhar. Muitas vezes chegava exausta, sem forças, mas continuava fazendo o que podia.
Eu sei que não fui uma mãe perfeita, mas fiz o melhor que consegui com as condições que tinha naquela época.
Em 2004, enfrentei mais um momento muito doloroso da minha vida: o falecimento da minha mãe. Perder minha mãe foi uma tristeza muito grande, principalmente porque eu sabia de tudo o que ela havia feito por mim durante a minha infância e nos anos em que enfrentei a doença. Foi mais uma perda que precisei enfrentar buscando forças em Deus.
Em 2006, minha saúde novamente exigiu muita fé e coragem. Por causa da osteomielite e de todos os problemas que tive no fêmur esquerdo, eu já havia perdido aproximadamente cinco centímetros de osso. Mancava muito, tinha dificuldades para caminhar e não conseguia andar nem dois quarteirões sem precisar de apoio ou ajuda.
Foi então que precisei passar por uma cirurgia para colocar uma prótese no fêmur esquerdo.
Graças a Deus, essa prótese me trouxe uma qualidade de vida muito melhor. Eu consegui recuperar parte da minha mobilidade e passei a ter mais independência para caminhar e realizar minhas atividades. Foi mais uma vitória depois de tantos anos de sofrimento.
Outra conquista muito importante na minha vida foi conseguir retomar os meus estudos. Como a doença havia prejudicado minha educação durante a infância, eu carregava comigo aquela vontade de estudar e aprender.
Mesmo depois de adulta, com filhos, trabalho e tantas responsabilidades, consegui fazer o supletivo e concluir o ensino médio.
Mais tarde, em 2014 e 2015, também tive a oportunidade de fazer dois anos de faculdade. Não cheguei a concluir o curso, mas considero essa experiência uma grande conquista. Para uma pessoa que passou tantos anos da infância dentro de hospitais e que não conseguiu estudar na idade certa, chegar até uma faculdade foi uma vitória muito importante.
Eu poderia ter pensado que já era tarde demais, que não valia mais a pena, mas não foi assim. Continuei tentando, porque acredito que nunca é tarde para buscar nossos sonhos e aprender alguma coisa nova.
Meus filhos também foram construindo suas próprias histórias. Minha filha mais velha se casou e fez faculdade, e meu filho do meio também conseguiu fazer faculdade. Minha filha mais nova ainda enfrenta alguns desafios para encontrar seu caminho, amadurecer e conquistar sua autonomia. Mas continuamos na luta, torcendo e acreditando que ela também vai conseguir construir uma vida feliz e saudável.
Em 2022, enfrentei mais um episódio muito difícil relacionado à minha saúde. Sofri uma queda muito séria, a ponto de dobrar meu joelho para trás. Precisei novamente procurar atendimento médico, mas, naquele momento, não foi possível realizar a cirurgia porque eu estava muito acima do peso.
Os médicos então sugeriram que eu fizesse uma cirurgia bariátrica, para que pudesse perder peso, melhorar minha qualidade de vida e diminuir a sobrecarga sobre a prótese e o joelho que já estava bastante lesionado.
E assim eu fiz. Passei pela cirurgia bariátrica pensando na minha saúde, na minha mobilidade e na possibilidade de viver melhor. Mais uma vez, precisei ter coragem e confiar em Deus.
Hoje, olhando para trás, vejo quantas coisas enfrentei ao longo da minha vida. Foram muitas internações, cirurgias, dores, dificuldades financeiras, problemas familiares e perdas. Houve momentos em que chorei muito, em que me senti cansada e desanimada, mas dentro de mim sempre existia uma esperança de que um dia tudo aquilo iria passar.
Hoje meus filhos já são adultos e casados. Minha neta mais velha vive comigo, e nós estamos morando em uma cidade próxima de Indaiatuba, também perto da minha filha mais velha.
Estamos bem, graças a Deus.
Hoje estou com quase 60 anos, e posso dizer que, apesar de tudo o que vivi, estou bem e saudável. Minha vida não foi uma vida fácil, mas foi uma vida de muita luta, fé e perseverança.
Se existe uma coisa que eu posso afirmar com toda a certeza, é que a minha fé em Deus foi o que me fez chegar até aqui.
Foi a minha confiança nele que me sustentou quando eu estava doente, quando precisava criar meus filhos sozinha, quando trabalhava exausta, quando perdi pessoas que amava e quando precisei enfrentar tantas cirurgias.
Muitas vezes, lá atrás, quando eu chorava e me sentia desanimada, pensava comigo mesma: “Um dia isso vai passar. Um dia o futuro vai chegar, eu vou conseguir, eu vou vencer.”
E hoje, olhando para tudo o que passou, eu posso dizer que venci.
Não porque minha vida tenha sido perfeita ou porque eu tenha conseguido realizar tudo o que sonhei, mas porque, apesar de todas as dificuldades, eu continuei. Eu não desisti da minha vida, não desisti dos meus filhos e nunca deixei de acreditar que Deus estava comigo.
Espero que minha história possa inspirar você que está ouvindo do outro lado, principalmente se estiver passando por algum momento difícil.
Não desista. Nunca desista da sua luta e da sua vida.
Tudo é uma fase. Tudo passa.
Às vezes, quando estamos vivendo uma situação difícil, parece que aquilo nunca vai terminar. Parece que não existe uma saída, que não vamos conseguir suportar. Mas o tempo passa, os dias mudam e, com fé e perseverança, encontramos forças para continuar.
Eu sou uma prova de que podemos enfrentar muitas dificuldades e, ainda assim, seguir em frente.
Hoje, quando olho para a minha vida, meu coração é de gratidão. Gratidão por tudo o que Deus me permitiu superar, pela família que construí, pelos meus filhos, pela minha neta e pela oportunidade de estar aqui contando a minha história.
Eu vivi uma vida que não foi muito fácil, mas tive muita fé, muita perseverança e nunca deixei de confiar em Deus.
E isso é o que importa.
Essa é a minha história. Uma história de luta, de superação e, acima de tudo, de fé.
Com carinho,
Vera Lúcia Magalhães









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